JUNTAR FORÇAS POR GRÂNDOLA

Dezembro 01 2009

 

A SAGA, A ODISSEIA DE IR AO HOSPITAL
 
8.30h da manhã. Desde ontem que não durmo com dores no estômago. Já vomitei as tripas e vísceras adjacentes, acho que é melhor ir ao Atendimento Não Sei Bem de Quê aqui de Grândola antes que feche. Lá fui. Tira a ficha, aguarda e sou atendida! “ Bem, devido à sua patologia e complicações, é melhor ir para o Hospital do Litoral e tal e tal”.
Valha-me Deus! Lá vou eu de estarola para o super-hiper-mega Hospital, onde dou entrada pela porta, não na consulta, pelas 10h da manhã. Olha para o placard electrónico: “Tempo estimado de espera para gajas como tu – cerca de 6h”. Paciência de santa e mulher doente... espera que já “almoças”. Pelo sim pelo não levei dois telemóveis. Estou “armada” pensei eu toda saloia. Hora de almoço, um vago cheiro de comida passa nos corredores, onde também passam pessoas com fardas, umas azuis, outras brancas. Pensei: vão concerteza oferecer-me nem que seja uma bolacha... o tanas!
Chega a minha hora, depois de muito vomitar de novo. Deito um olhar triste às máquinas que oferecem bolos e sumos congelados a troco de uns bons trocos. Ná, não posso... eles hão-de lembrar-se de mim. Fui atendida por um dos seres vagamente humanos que funcionava como um apêndice dos computadores: se saía uma tira de papel do computador, ele fazia alguma coisa, se não, ficava à espera como um cão fiel.
Não pude sair. “ Diz aqui neste papel que terá que ficar em observação durante a noite”.
Pensei feliz: “Vão dar-me jantar!” oh triste ilusão... nada! E o cheiro da comida voltou a passar por mim que já aguava e jejuava. Toda a noite aqueles seres dependiam dos computadores para fazer fosse o que fosse. De repente apercebi-me que tinha caído numa história do Kafka: isto é surrealista! Tentei falar com um de branco perguntando: “ Não vou ter um leite para jantar? É que entrei às 10h da manhã”. O ser robotizado olhou para mim e para o computador, escreveu umas coisas, esperou e lá veio a tira de papel. “Não, não há autorização para comer” e virou-me as costas! Eu já praguejava, já impava, e não é que estava a fazer coro com as outras pessoas que lá estavam? Os doentes eram HUMANOS, os outros não, que curioso...
Quatro da manhã. Uma voz ouve-se: “Não consigo dormir. Alguém me dá um comprimido para dormir, por favor?” Era um velhote. Veio um ser de azul e falou com ele: “não lhe posso dar nada sou auxiliar, tem que pedir a um médico”. “Então chame um médico pelo amor de deus”. “Não posso. O médico está a descansar”. “Mas era isso que eu queira também” gemia o velhote. “Temos que respeitar o descanso dos doutores”. A estas horas eu já não tinha bem a certeza se os doutores eram os médicos ou os computadores... na verdade, agiam em sintonia total, era natural um pequena confusão destas.
Chega a manhã. É agora que vou sair se a máquina disser que sim! Viva! Estarei livre disto para ir gemer e vomitar em casa! Um fardado de branco aproximou-se com a tira de papel na mão: “ A senhora já tem alta, pode sair”. “Mas e nem o pequeno almoço me dão?” ele foi consultar o “oráculo” e veio a nova tira de papel: “Não tem direito a isso, mas pode sair e comer lá fora nas máquinas!” “oh porra”, pensei eu!
Esta gente é doida, ou isto evoluiu demais e eu não acompanhei? Onde é a paragem do autocarro? Mas qual paragem? Aqui não há disso! E a praça de taxis? Está maluca? Não há aqui praça de taxis! Furiosa saco dos telemóveis: um não tinha rede, outro não tinha bateria! Ohhhhhh azar desgraçado: posta na rua do hospital, meio morta de fome, sem amigos, sem boleia, perdida num descampado atrás do sol posto! Mas sou uma MULHER! Sou forte, já pari, também resolvo isto. O desalento tomou conta de mim... pois pari. Parimos quase todas. Parimos gente desta! Somos nós que os carregamos, os parimos, os cuidamos educamos para ISTO! Para serem políticos que geram obras destas. Puxei de um cigarro, sentei-me no chão enfrentando a cruel realidade: a culpa é MINHA! A CULPA É MINHA! Estou assim porque todas andamos a ver o filme ao contrario, os mimamos demais, os enchemos de sonhos de poder e valentia, de mando, posso, quero, dependo de uma máquina que me diga o que fazer. A culpa de ir a pé para Santiago é minha, de não ter comido é minha, de não ter bombeiros que me levem a casa é minha, de ser mulher, de ser doente, de produzir seres como este é MINHA! A culpa (diziam os computadores lá dentro) é de todos em geral mas de ninguém em particular.
Não quero estar doente neste hospital ou enlouqueço! Alguém pode vir buscar-me? Boleia para Grândola, há? Por favor? Por favor? Chuifff chuifff... oh filhos da mãe!

 

JOSEFINA BATISTA

publicado por Bloco Grandola às 13:10
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E não é que a senhora tem sentido de humor? Dá vontade de rir o post, mas é a p**** da realidade! Estamos bem entregues sim. E outra coisa, esta questão da educação diferenciada que se dá a filhos e filhas tem que ser muito bem repensada. Os tempos evoluiram e tanto eles como elas devem ter os mesmos valores, os mesmos direitos e cuidado com o que se lhes ensina!
Não vale a educação do Chico-esperto, que mais tarde nos rebenta nas mãos.
Bom post! Gostei muito do seu sentido de humor e deste retrato vivo do que por aqui se vive.
G.I. a 1 de Dezembro de 2009 às 16:41

ahahahah até na doença você é terrível! Mas... não queiramos cair nesse hospital, é mesmo no meio do NADA e os médicos trabalham assim mesmo: tudo às ordens do computador, irra!
Anónimo a 1 de Dezembro de 2009 às 22:21

France Télécom reconhece suicídio de 32 funcionários
por DN.ptHoje

A France Télécom anunciou que nos últimos dois anos 32 dos seus funcionários cometeram suicídio, 17 dos quais nos últimos doze meses. Um número superior ao avançado anteriormente, num escândalo em que os métodos de gestão de trabalhadores seguidos pela terceira maior operadora móvel da Europa foram muito criticados.

“Após um pedido da inspecção de trabalho, interrogámos recentemente os directores territoriais e regionais. Contabilizámos 32 suicídios em dois anos. O número foi comunicado, com total transparência, à inspecção de trabalho”, anunciou em comunicado o maior fornecedor de Internet de França, citado pelo ‘El País’.
Anónimo a 1 de Dezembro de 2009 às 23:19

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